Publicado em 25/07/07
Leia Lc, 10, 38-42 e medita sobre Marta e Maria e veja qual a agitação de Maria.
Artigo: Maria a agitada – D. Pedro José Conti
terça - 24 de julho de 2007
Nos Evangelhos não encontramos somente duplas de irmãos como os apóstolos Pedro e André, Tiago e João. Há também uma dupla famosa de irmãs: Marta e Maria, irmãs de Lázaro, o amigo de Jesus. A casa de Betânia era a casa da amizade, onde o ambiente devia ser gostoso e aconchegante. Devia ser quase um refúgio para Jesus. Longe das ameaças dos poderosos e das armadilhas dos doutores da Lei, Jesus podia descansar, viver a experiência tão humana e gratificante de sentir-se em casa. Ele que não tinha de próprio nem onde reclinar cabeça, sentia-se bem na casa de Marta, Maria e Lázaro.
Sem dúvida, lá, Jesus devia poder falar baixo, sem gritar, como se faz em casa, ao pé do ouvido. Não tinha as multidões; tinha somente amigos, os poucos íntimos. Devia reinar uma paz muito grande, junto com a alegria contagiante de poder ouvir Jesus tão de perto. Mas não era bem assim, nem todas as pessoas entendiam e entendem.
Marta fica agitada com a visita de Jesus. Fica preocupada. Não se conforma com a atitude de Maria: sentada aos pés de Jesus, só ouvindo. “Mas onde já se viu isto?” Deve ter pensado a superatarefada Marta. Bem educada, não reclama diretamente com Maria na frente de todos, chamando-a de folgada. Prefere que seja o próprio Mestre Jesus a decidir se Maria, uma mulher, podia ficar ali sentada, como se fosse um dos discípulos, quando ela, Marta, não agüentava mais de tanto serviço. A dona da casa não queria passar vergonha com a refeição.
Jesus aceita a provocação e responde com palavras que não ofendam a preocupada Marta, mas, ao mesmo tempo, reconheçam que Maria escolheu “a parte melhor” prestando atenção às palavras dEle. Porque “um só coisa é necessária”, diz Jesus.
Parece tão fácil: a contemplação, a oração, o silêncio atencioso, são a parte melhor. Porém continuam privilégio de poucos. E, olha lá, se esses também já não foram chamados, com menos delicadeza de Marta, de acomodados, preguiçosos, fujões, alienados, descompromissados... Em um mundo cheio de problemas, não dá mesmo para ficar parados. A resposta é a ação. Uma ação urgente. “Faça alguma coisa JÁ” é o que os pregadores inflamados de todas as causas justas e improrrogáveis do planeta, gritam aos nossos olhos e aos nossos ouvidos, dia e noite.
Talvez fosse mais simples se nos convencêssemos de que a agitação depende de nós. A nossa agitação começa por dentro, não vem de fora. Precisamos nos questionar, nos agitar saudavelmente pelos questionamentos profundos da nossa vida.
Às inquietações interiores, espirituais, aos questionamentos sobre o sentido da nossa vida não se responde com outras agitações, mas com o silêncio, a reflexão, a oração. Também a ação, que necessariamente virá, será bem pensada, bem motivada, surgirá por uma decisão consciente do coração e não pela superficialidade de uma emoção evanescente.
Por isso acredito, tranqüilamente, que Maria também estava agitada, mas com outro tipo de preocupação que não era a dos afazeres da casa. Maria tinha uma fome e uma sede daquelas que não se satisfazem com os cardápios humanos. Nem com faixas, gritos e palavras de ordem. Nesse sentido ela escolheu a fonte melhor para satisfazer a sua fome e a sua sede de sentido da vida: o próprio Jesus. E nós, que corremos tanto, seria melhor se parássemos um pouco, aos pés do Mestre, claro.
Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá